Muitas vezes tendemos a extrair conclusões precipitadas. Não raramente, formamos uma opinião a partir de um único ponto de vista, como se aquilo que vemos fosse a totalidade do que aconteceu. Entretanto, quando nos dispomos a considerar outra perspectiva sobre a mesma história, podemos descobrir que aquilo que parecia evidente talvez não fosse exatamente assim.

Olhar de outro modo não significa necessariamente mudar de opinião. Significa, antes, ampliar o campo a partir do qual podemos compreender, julgar e, quem sabe, escolher. É nesse movimento que o olhar se torna mais livre: quando já não está limitado à primeira versão que lhe foi apresentada.

Com o intuito de provocar esse exercício, proponho a leitura do conto “Desabafo”, que segue abaixo. Trata-se de uma releitura, a modo de paródia, do conto “História Porto-Alegrense”, do saudoso escritor Moacyr Scliar.

Caso o leitor ainda não conheça o conto de Scliar, sugiro que leia primeiro “Desabafo” e somente depois “História Porto-Alegrense”. Talvez, assim, a segunda leitura ofereça uma perspectiva diferente — não apenas sobre a história, mas também sobre o próprio ato de olhar.

Desabafo

História Porto-Alegrense, de Moacyr Scliar, sob o ponto de vista do protagonista masculino

Pois é, estou reclamando sim! Mas não quero dizer toda a verdade, pois a verdade dói. Não sou porto-alegrense, embora com o tempo tenha me tornado um. Sou o filho de um fazendeiro da fronteira e tu te consideras a tal, só porque nasceste em Porto Alegre! Quanto orgulho em teu coração… Quando cheguei nessa cidade logo te encontrei. Porto Alegre era mato, não existia quase nada. Lembro-me que na época começaram a circular os primeiros bondes. Tu eras magnífica, encantei-me logo ao primeiro olhar! Trabalhavas num armarinho da Cidade Baixa. Eu achava que minha vida não era fácil, pois estudava muito! Quanta ingenuidade em meu coração! Nem imaginava ainda o que era uma vida dura. Tinha muito tempo disponível e dava-me ao luxo de sair à noite para declamar poesias.

Eu sempre encontrava várias oportunidades para te visitar e te levava flores. Começamos a namorar. Eu não me importava com que os outros falavam, pois te amava profundamente. Saíamos juntos, de braços dados. Passeávamos entre a Praça da Alfândega até a Igreja da Conceição. Sei que gostavas muito desses passeios. Éramos muito felizes.

Providenciei logo a melhor casa para nós: um antigo palacete de um barão, com um belo jardim com um lago. Tínhamos criados à disposição e um automóvel, que foi um dos primeiros de Porto Alegre. Meu pai, homem correto, ensinou-me a fazer o melhor por uma mulher.

Aos poucos fui percebendo que tu não gostavas de mim. Sim, tu não me amavas como eu te amava. E essa verdade me corroía o coração. Minha ruína começou aí: percebi que eras interesseira, gostavas mesmo dos mimos e dos presentes que eu te dava. Teus parentes eram interesseiros também. Mas eu te amava, como te amava… e sofria por isso. Comecei a ajudar teus parentes pobres.

Meus parentes? Estes se afastavam cada vez mais de mim, percebendo que eu me arruinava a cada dia insistindo num amor interesseiro de uma mulher que não tinha onde cair morta, era o que diziam. Decidi, então, que deveríamos morar nos Moinhos de Vento, pois queria mesmo provar que nosso amor era verdadeiro. Quanta ingenuidade a minha! Ali tu mostraste quem eras realmente!

Naquela ocasião os negócios de meu pai não iam bem e comecei a trabalhar. Tive que dispensar a cozinheira, pois não teria mais como mantê-la. Para tu não perceberes, disse que tu cozinhavas melhor. Apenas isso.

Meus parentes tinham pena de mim e eu já nem tinha mais coragem de encará-los! Na verdade, a vergonha e a angústia que cresciam em meu coração por um amor não correspondido fizeram me afastar cada vez mais deles.

Minha prima Rosa Maria, com quem desde pequeno mantinha uma amizade verdadeira, queria me ajudar. Ela não se afastou de mim. Muitas vezes pedia conselhos a ela, mas fazia isso por meio de bilhetinhos, para que tu não pensasses mal de mim. E o que aconteceu? Fui injustiçado, sendo acusado de traição. Naqueles dias eu já não sabia mais se te amava! Como se não bastasse, por causa de Rosa Maria, tu me expulsaste da casa! E o que é pior, choravas dizendo que gostavas de mim. Mesmo assim, não queria que ficasses mal.

Com o passar do tempo meu pai se arruinava cada vez mais em seus negócios. Quando veio a falecer, pouco restava de seus bens a ser divididos entre os filhos. Agora tinha gastos dobrados – comigo e contigo – porque gostava de ti, e não poderia deixar-te sem uma casa digna. Arranjei uma casa sem jardim para ti em Petrópolis. Constrangido, justifiquei-me dizendo que jardim só dava trabalho. Tamanha era minha vergonha. Fiz isso porque gostava de ti.

Em meio a minha angústia deixei-me levar pela paixão que Rosa Maria mantinha por mim. Eu não a amava, mas ela me amava. Juro que não sabia, eu era ingênuo demais. Ela manteve este segredo durante anos. Com tamanha frustração por um amor não correspondido, deixei-me levar por Rosa Maria. Quando me dei conta, já estava casado com ela. Não por amor, mas por frustração. Tinha uma vida agitada, pois assumi um cargo na direção da firma do meu sogro. Aí sim descobri o que era uma vida dura.

Com a chegada dos bondes e ônibus, tu não precisarias mais de um automóvel e motorista. Eu, sim, precisava de um, pois tinha agora a dura responsabilidade dos negócios e não tinha tempo de andar de bonde ou de ônibus pela cidade. Rosa Maria, até então, nem suspeitava que eu te ajudava!

Muitas vezes precisei ir a Petrópolis tratar de negócios. Como se não bastasse a dura vida, tu me insultavas, pedindo-me dinheiro para ti e tua família, como se eu tivesse a obrigação de te manter. Como tu bem sabes, tenho duas filhas e não foi nada fácil sustentar a família. Vi-me obrigado a fazer com que se mudasse para Três Figueiras, para uma casinha simpática de madeira. Mesmo casado, com filhas, ia te ver às escondidas, pois gostava de ti. Na verdade, tinha pena de ti! Por isso passei a visitar-te com menos frequência. Vi que já não precisavas de empregada, parecia que estavas compreendendo que eu estava apenas fazendo uma caridade a alguém que um dia amei apaixonadamente, mas que nunca fui correspondido. Mas eu não te odiava, ainda chorava ao imaginar que bela vida teríamos juntos se tu me tivesses me amado verdadeiramente.

Depois de uns anos percebi que tu estavas trabalhando como costureira e em breve já poderia te manter sozinha – assim eu acreditei. Mas Três Figueiras se tornara um bairro elegante e mesmo com minha ajuda não seria possível que continuasses lá. Julguei que seria melhor arrumar uma casa para ti na Vila Jardim, pois poderias desfrutar de um jardim natural, afinal, tu gostavas de jardim. Era o que estava ao meu alcance naquela época! Eu me preocupava contigo, mas me despreocupei comigo ao longo dos anos! Cheguei a uma angústia existencial profunda. Já não me importava com a família, com bens e com dinheiro, como antes. Mas posso dizer que ainda restava uma centelha de preocupação contigo.

Não queria que zombassem de ti, como muitos zombavam de mim, pois todos já sabiam do nosso caso. Disse, sim, para tu saíres e morar numa casa barco, pois eu já não tinha dinheiro. Aliás, eu já não tinha sequer um lar: Rosa Maria tinha morrido e minhas filhas me abandonado já havia dois anos. Mas isso tu não sabias, pois eu não queria admitir nem a mim mesmo. Havia alguns barcos velhos no Guaíba, num lugar deserto, perto do Porto das Pombas e improvisei uma casa para ti.

Vivia eu numa melancolia profunda. Cada dia era penoso em pensar que tudo poderia ter sido diferente. Meu consolo foi te encontrar no dia do meu aniversário. Sim, eu precisava de um alento ao menos naquele dia. Disse-te que eu ficara viúvo e minhas filhas me abandonaram. Mas já havia me tornado viúvo de uma mulher viva! Pensei que o zen-budismo iria dar uma resposta a minha melancolia, mas foi em vão. Disse-te que o melhor a se fazer era lançar-se ao nada! Sim, o nada!

Decidi-me lançar-me à sorte da força da gravidade no terceiro andar do edifício Malakoff. Por isso achava que o melhor para ti era um final menos triste que o meu e te escrevi um bilhete e sugerindo para te deixasses levar ao sabor do destino pelas correntes do Guaíba. Acontece que não tive coragem de me jogar! Arrependido por ter escrito aquele bilhete, alguns dias depois corri até o Porto das Pombas. Estava decidido a contar-te toda a verdade: sempre te amei, vivi angustiado toda minha vida porque fui orgulhoso não admitindo que eu errei diversas vezes. Talvez eu pudesse… ter tentado fazer as coisas de maneira diferente. Mas ao chegar ao porto, tua casa barco já não estava mais no local. Encontrei, sim, uma carta dentro de uma garrafa encostada à margem do Guaíba, próximo do local onde ficava tua casa barco. Depois de ficar – não sei quanto tempo – paralisado ao ler a carta, desabei a chorar como uma criança desesperada. Isso foi ontem. Hoje escrevo este desabafo e colocarei dentro da mesma garrafa. Lançarei ao Guaíba na esperança de que tu ainda possas me compreender.

Daniel Luiz Medeiros

Conto publicado originalmente em Scripta Alumni – Uniandrade, n. 19, 2018. ISSN: 1984-6614.